Coral das Vovós do Amparo Thereza Christina

apresentação em 09 de outubro de 2001, Livraria Marcabru, Shopping Trade Center da Gávea, lançamento do livro “O Homem Além do Homem”, Beatriz Breves, Ed. Mauad., RJ.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

http://www.amparotherezachristina.com.br/

 

 

NO DIÁLOGO DO SILÊNCIO

 

"- Têm dias que dá uma dor no peito, que não dá vontade de fazer nada!" Essas palavras vieram de Rosa. Disse e, assim como falou, calou-se em um silêncio profundo.

 

Sem saber o que fazer, até porque nunca havia estado com aquela senhora antes, coloquei uma de minhas mãos por sobre um de seus ombros, e assim fiquei.

 

Sem parar, um rapaz cantava e tocava em seu órgão eletrônico, canções que, se eu não estou enganada, eram do tempo de minha avó. Algumas senhoras dançavam, outras apenas apreciavam e outras dormiam profundamente. Arrisco dizer que ali, a média de idade era 85 anos.

 

Passado algum tempo, Rosa, mais uma vez, com um tom de voz muito sofrido, falou que achava muito triste cadeira de rodas.

Havia várias senhoras em cadeira de rodas. No entanto, aparentemente alheia a tudo e a todos, bem à nossa frente, havia uma tão magra que qualquer um poderia detalhar o seu esqueleto. Suponho, ela deveria ter mais de 90 anos.

 

Falei que dependia do ponto de vista, pois se não houvesse cadeiras de rodas, muitas daquelas pessoas, provavelmente, estariam em suas camas. E acrescentei: "você não está em uma cadeira de rodas".

 

Emitindo um profundo suspiro, Rosa exclamou:"- graças a Deus!".

 

Depois das palavras de Rosa, meus olhos não podiam mais se desviar daquela senhora à nossa frente. Com seus pouquíssimos cabelos brancos, faces "chupadas", parecia mais um cadáver vivo. Aquela cena começou a despertar o sentimento de uma profunda dor em meu peito.

 

Como uma pessoa tão magra poderia estar tão pesada em seu próprio corpo?

 

Senti que ela representava, em si mesma, a convergência da fragilidade de uma idade muito avançada com o peso de uma longa história de vida. No entanto, o que mais doía dentro de mim era que, se por um lado, a sua história de vida não poderia mais ser contada por ela, por outro, não havia nenhum de seus personagens ao seu lado para contar.

 

Com a dor aumentando em meu peito, eu pensei: "o que é que eu estou fazendo aqui?" Era um domingo de sol. Sentia vontade de sair correndo, queria fugir daquele lugar.

 

Foi quando então disse a Rosa: "- é... você tem razão, cadeira de rodas é muito triste e eu entendo a dor que você está sentindo." Ela nada respondeu.

 

Enquanto conversávamos em nosso silêncio, Rosa e eu éramos convidadas para dançar, mas nós duas ignorávamos os convites.

Passado algum tempo: "- às vezes tenho vontade de ir embora deste lugar!". Era Rosa, mais uma vez, falando comigo.

 

Eu não consegui responder absolutamente nada, ela sentia o mesmo que eu. A diferença, eu pensei, é que eu tinha para onde ir e Rosa não.

 

Comecei a me projetar para o futuro e percebi o meu pânico de um dia estar daquele jeito, o meu pavor de perceber que, para não estar como aquela senhora, só havia uma opção: a morte.

 

Uma revolta interna apossou-se de mim e eu comecei a sentir muita raiva de tudo o que estava me deparando. Que grande opção a vida me oferecia: morrer ou ficar daquele jeito, um pedaço de carne viva!

 

Que direito vida você tem para ter tamanho poder sobre mim? O que você pode fazer com meu corpo, minha alma? Você simplesmente ignora-me ao apresentar a possibilidade de, a qualquer momento, liquidar a minha identidade, a minha história.

 

O meu consolo era que, diferente de Rosa, em tese, eu ainda estava longe daquela situação. Ironicamente, a morte passou a ser uma sorte.

 

E foi naquele momento que compreendi que Rosa, ao entristecer-se diante da cadeira de rodas e ao querer ir embora, não se referia à cadeira e ao lugar em si. Até porque o lugar era de uma limpeza rara, onde todas as senhoras estavam muito bem cuidadas, cheirosas e, podia sentir, eram amadas pelas pessoas que as amparavam. Ela falava sobre a cadeira em que todos estamos sentados para apreciar a nossa própria decadência na roda da vida, sobre o lugar de ser humano que todos nós ocupamos em nosso ser.

 

Foi quando a minha angústia aumentou, pois percebi que eu também não tinha para onde ir.

 

Ir para onde? Eu poderia passar a minha vida inteira indo de um lugar para outro, mas jamais poderia me mudar de mim mesma.

 

A saudade tomou conta de mim, diante do poder mágico da vida para transformar anos em segundos. Os meus anos de vida viraram segundos, quando olhei para trás. Toda a minha história de vida aconteceu muito rápido, quando vi o meu passado. Então, seria uma questão de poucos segundos para eu estar daquele jeito.

 

Foi quando compreendi que o que eu estava projetando para o meu futuro, caso não morresse antes, não era o meu futuro, mas o meu presente em poucos instantes; e mais, que não estava bem à minha frente, mas dentro de mim.

 

Tentando aliviar um pouco o que estava sentindo, perguntei a Rosa quantos anos tinha.

 

Com uma certa dificuldade e constrangimento, respondeu: "- Não estou escondendo a minha idade de você, eu realmente não sei quantos anos tenho. Eu perdi a minha idade!"

 

Mais perdida eu fiquei. Rosa não estava me dizendo que havia esquecido a sua idade, ela dizia que havia perdido a sua idade. E o que significaria perder a idade? Estaria tão sofrida que se sentia incapaz de encontrar a sua própria história? Eu não tive coragem de perguntar se ela tinha família, provavelmente não.

 

Como aquilo tudo estava doendo dentro de mim. Com uma pessoa que nunca havia visto em minha vida, eu conversava sobre o lugar do silêncio nas águas frias do abandono, o lugar do silêncio no precipício do desamparo, o lugar do silêncio na ilha da falta de lucidez, o lugar do silêncio na areia movediça da ausência de nossa própria história. Enfim, conversava sobre os lugares silenciosos da vida, que dizem muito e que, por vezes, chegam até mesmo a gritar, mas, geralmente, tentamos não ficar e, muito menos, escutar.

Conclui que, um dia na vida da gente, começamos a perder a nossa idade e que isto começa devagarinho, de forma sutil, no dia em que a nossa memória começa a partir. Quando a nossa memória vai embora, ela leva junto toda a nossa história de vida, deixando na expectativa desta possibilidade, para quem ainda não chegou lá, a dor da mais profunda vergonha diante de nossa vaidade e orgulho pessoal. Ah! Meu Deus, como isto dói!

 

As minhas emoções fervilhavam no ápice do meu desamparo humano quando Rosa, após um longo silêncio, virou-se para mim e disse: "- Estou começando a colher o que você plantou!"

 

Perplexa, pois não sabia o que havia plantado, perguntei o que eu havia plantado. Rosa apenas sorriu e não respondeu.

Entendendo menos ainda, resolvi inverter a pergunta. Perguntei o que ela estava colhendo, pois talvez assim, saberia o que havia plantado. Mas, mais uma vez, ela apenas sorriu e não respondeu.

 

Passados alguns poucos minutos, Rosa se levantou e foi dançar. Foi quando percebi que apesar de sua tristeza, ela estava viva e, por isto, também podia ficar alegre.

 

Sentou-se novamente ao meu lado, quando uma de minhas mãos começou a "formigar" e a "adormecer". Falei a Rosa sobre o que acontecia comigo. De forma generosa e muito carinhosamente, começou a friccionar a minha mão, a fim de fazer voltar a circulação.

 

Compreendi que como algumas senhoras dormiam profundamente, eu tentava adormecer o meu corpo para não me confrontar com a dor de estar vivendo aquela situação.

 

No entanto, Rosa pode me mostrar que, somente abrindo espaço interno para sentir, mesmo que, como no caso da senhora da cadeira de rodas, fosse um sentir sensorial, era possível, apesar de tamanho sofrimento, sentir alegria de viver e dançar ao som da vida.

 

E só assim pude perceber o quanto eu estava sendo cega ao ver aquela senhora à minha frente como um pedaço de carne viva. Eu nunca olhei para um bebê como um pedaço de carne viva e entre aquela senhora e um bebê, a diferença é que um bebê despertava em mim a ilusão dos meus sonhos e ela, a desilusão dos meus sonhos. E só por isto ela me assustava tanto.

Não, ela não era um pedaço de carne viva, mas um ser humano que estava ali, do jeito dela, usufruindo a tarde, não com a idade e a saúde que eu gostaria de ter para sempre, mas com a idade e a saúde que a vida nos impõe com o passar do tempo. E só por isto ela me assustava tanto.

 

Percebi que aquela senhora tão idosa vibrava os semitons da vida, contrariando o meu desejo de que a vida só tocasse na escala principal. E só por isto ela me assustava tanto.

 

Enfim, aquela senhora da cadeira de rodas, eu senti, ainda poderia me ensinar muito se eu estivesse disposta a aprender.

 

Descobri que toda aquela conversa estava se passando a três e não a duas, ou seja, entre eu, Rosa e a senhora da cadeira de rodas; e que não só eu havia plantado, mas nós três tínhamos plantado e colhido, uma na outra, um sentimento que considero um dos mais profundos do ser humano, o sentimento de solidariedade. Aprendi que de nada adiantaria fugir da possibilidade da minha velhice avançada e consegui então, naquele dia, conhecer um pouquinho mais sobre mim mesma, sobre o respeito e sobre o amor. E isto foi muito bom.

 

—————————

 

O Amparo Thereza Christina é uma Instituição Filantrópica, Fundada em 1924 para Amparar a Velhice Desamparada - Telefone: 0-XX-21-22610020

 

 

 

 

NO DIÁLOGO DO SILÊNCIO

(Uma Homenagem à Velhice Avançada e ao Amparo Thereza Christina)

Beatriz Breves