Que corpo é esse?

Que me faz existir, que me reluz, que me permite a mim,

que me deixa sentir, que me interage, que me mata!?

 

Há, aproximadamente, 10 bilhões de anos, pontos de mim, 

presentes no Big Bang, na origem do universo, iniciei um processo evolutivo.

Passei pela primeira galáxia, pela primeira estrela,

fui um átomo, uma nuvem cósmica, e assim por diante,

até que, por uma convergência dos pontos de mim, me tornei Ser!

 

Inevitável processo, que não escolhemos participar.

Seguindo aquilo que nos foi imposto,

somos seres solitários seguindo a nossa trajetória.

 

Oh! Meu Deus!

Tão questionado, tão desejado, acho que preciso de ti

para me sentir alguém nesta imensidão do qual sou apenas,

uma mísera partícula, iludida como ser pensante, ignorante no ser.

 

Que corpo sou eu?

Uma transmutação viajante deste universo,

tenho medo de prosseguir, tenho pavor de parar.

Sinto emoções profundas, sinto uma angústia existencial,

sei que sou parte disto tudo, mas não sei verdadeiramente o que sou.

 

Que corpo somos nós?

Se penso que daqui há 150 anos, todos que hoje habitamos o planeta Terra

não estaremos mais aqui.

Nossos corpos estarão deteriorados em nossas tumbas.

E outros homens virão, dando continuidade ao que fizemos;

Mas, assim como nós, após alguns anos, nesta evolução,

os seus corpos estarão deteriorados em suas tumbas.

Neste processo poderíamos ficar, aproximadamente, por mais

8 bilhões de anos, quando a Terra, devido às mudanças do Sol, se acabará.

Se até lá a espécie humana não evoluir para uma outra forma

e/ou conquistar outras pousadas no universo,

a raça humana estará extinta e não fará mais sentido.

Se não fosse pouco o nosso planeta acabar,

nós, até então, sugados pela terra, ao cosmos voltaremos,

e pontos de nós continuarão, sabe-se lá para onde,

e quem sabe, que outras convergências farão.

 

Que corpo é o meu?

Tento conseguir uma resposta,

me exponho, mas não encontro.

 

No macrocósmico do universo, a natureza fez a mim

prisioneira dos meus sentidos.

Só posso ver, ouvir e falar, com os instrumentos que possuo.

Sou limitada na minha percepção.

No microcósmico do universo, a natureza fez a mim um conjunto de átomos

que no meu interior possui energia.

No entanto, quando me olho, vejo

uma massa com forma, trabalhada e delineada, que chamo: corpo.

Olhando para mim, frente a um espelho, começo a me ver diferente,

é como se os meus sentidos tivessem evoluído

para uma outra forma que me permitisse

apenas ver a estrutura do meu corpo, o interior dos meus átomos.

O meu rosto não é mais sólido, é luz (energia).

Tento tocar esta nova apresentação de meu corpo,

mas, minhas mãos, agora, também, energia, atravessam por ele.

Nem espelho há mais, pois este também é feito de átomos

e assim, virou energia.

Eu e tudo à minha volta viramos pontos de luz.

 

Abro o livro de Kandinsky e ele escreve:

O ponto geométrico é um ser invisível. Deve, portanto, ser definido como imaterial.

Do ponto de vista material, o ponto compara-se ao zero.

Mas este zero esconde diferentes propriedades “humanas”.

Segundo a nossa concepção, este zero ¾ o ponto geométrico ¾

evoca o laconismo absoluto, ou seja, a maior retenção mas, no entanto, fala.

Assim, o ponto geométrico é, segundo a nossa concepção,

a última e única união do silêncio e da palavra.

Eis porque o ponto geométrico encontrou a sua forma material

em primeiro lugar na escrita ¾ ele pertence à linguagem e significa o silêncio.

Na fluidez da linguagem, o ponto é o símbolo da interrupção,

o Não-ser (elemento negativo) e, ao mesmo tempo, é a ponte

entre um Ser e outro (elemento positivo).

Na escrita, é essa a sua maior significação interior.

Exteriormente, não é mais que um signo na sua aplicação prática,

trazendo em si o elemento “utilitário” que apreendemos em crianças.

O signo torna-se um hábito, encobrindo o som profundo do símbolo.

O interior está murado pelo exterior.

O ponto faz parte do domínio dos hábitos ancorados em nós

com a sua ressonância tradicional que é muda. (1)

 

Inspirando-me em Kandinsky, também vejo a mim como um ponto:

sou inteira, indivisível e impossível de definição.

Vejo que é a minha limitada condição humana que cria para mim

a fronteira entre o visível e o não visível, o perceptível e o não perceptível.

A evolução do universo me fez na ilusão de uma fronteira,

ou quem sabe também e por que não? Na fronteira de uma ilusão.

Fronteira que não existe, existência que não é fronteira,

salvo pela minha limitada condição perceptiva

que me desenha uma massa sólida, definida e dividida.

Entendo que, se me vislumbro

através do aspecto macrocósmico do universo,

percebo a mim como um ser material.

Mas, se me vislumbro através do aspecto microcósmico do universo,

percebo a mim como um ser imaterial.

Tento então, lançar o olhar sobre mim mesma,

através do aspecto de minha totalidade macromicro.

Compreendo que sou a união do silêncio e da linguagem,

pois pertenço à linguagem e significo o silêncio.

Sou o símbolo da interrupção, o Ser e o Não-ser.

Sou um complexo macromicro, inacessível em minha complexidade.

Sou uma totalidade que devido a limitação dos meus sentidos,

acesso apenas as minhas parciais manifestações:

no nível macrocósmico, apresento-me como um ser biológico,

no nível microcósmico, apresento-me como um ser psicológico.

 

Que corpo é esse?

Quantos mistérios existem!

 

Saio pelas ruas e verifico que ao me comunicar, o faço através de ondas.

A energia se propaga através de ondas.

Quando eu vejo, tenho a sensação da luz, uma onda eletromagnética,

que ao incidir sobre o outro, sofre reflexão e vem ao encontro

daquilo que chamo de meus olhos e me possibilita a sensação

daquilo que chamo de visão.

Quando eu escuto, tenho a sensação da voz, uma onda mecânica,

que ao ser emitida por um outro corpo, vem ao encontro

daquilo que chamo de meus ouvidos e que me possibilita a sensação

daquilo que chamo de som.

Quando eu falo, estou produzindo aquilo que chamo de som, onda mecânica,

que ao ser emitida por meu corpo,

vai ao encontro dos ouvidos de um outro ser,

que se não existisse para interagir comigo,

não daria sentido às minhas vibrações.

 

Que corpo é esse?

Que materializa a energia,

engana a minha compreensão,

brinca com o meu entendimento!?

 

Resolvo dormir, passo cerca de 1/3 de minha vida dormindo.

Durante o meu sono, eu sonho. O meu sonho faz-se nas cores.

Na natureza, eu sei que onde há cor, há onda eletromagnética,

e mais uma vez vejo luz.

Os meus sonhos processam-se nas luzes,

através de ondas eletromagnéticas.

Fico pensando de onde elas vem e concluo:

sendo o meu corpo quântico, o mundo do meu interior atômico,

um mundo de energia;

sendo as ondas eletromagnéticas um fenômeno periódico

que transporta energia,

os meus sonhos estão processando

este aspecto da minha natureza humana.

 

Nitidamente eu enxergo que o meu corpo e o meu psíquico

não são causa ou conseqüência um do outro e muito menos,

que o meu corpo e o meu psíquico

são fenômenos isolados que formam uma unidade.

Fica claro para mim que o meu psíquico e o meu corpo

são aspectos da mesma coisa,

tudo passa a ser uma só questão:

a possibilidade e a impossibilidade da minha percepção

diante da apresentação da natureza.

 

Pude compreender que

o meu psíquico é o meu corpo e o meu corpo é o meu psíquico.

Pude compreender que sou macromicro.

 

Que corpo é esse?

Que macromicro é esse?

 

O mundo se apresenta a mim pelos meus sentidos,

e, sem nunca pedir licença para isto,

penetra o meu eu macromicro através do meu sentir.

Sinto sensações e sentimentos de tudo o que me penetra, e vibro.

Posso sentir as minhas vibrações,

o ritmo da minha existência, o pulsar da minha essência.

O meu sentir é a máxima de minha existência vibratória,

que ao atingir a minha consciência,

através das freqüências das minhas vibrações,

me possibilita pensar o meu ser por sobre e através de mim.

 

Olhando-me por este ângulo diferente, neste passeio de minha expressão,

o eu e o outro se apresenta mágico e fascinante, belo e assustador.

 

Já se passou algum tempo e olho o meu relógio.

Quando olho o meu relógio do aspecto do meu eu macrocósmico,

percebo que se passaram quarenta e um anos de minha vida.

Mas quando olho o meu relógio do aspecto do meu eu microcósmico,

percebo que se passou um pouco mais que alguns segundos de minha vida.

O tempo, quando me olho entre este dois referenciais de mim mesma,

apresenta-se relativo, ligado ao espaço, um contínuo espaço-tempo.

Assim, aquilo que já me aconteceu e foi assimilado pelo meu eu, nível microcósmico,

pode não ter sido assimilado pelo meu eu, nível macrocósmico.

 

Que corpo é esse?

Quanta ignorância há em tudo isto.

Descubro-me tentando entender,

o que não é possível compreender

além de uma limitada condição de ser pensante,

que penso que sou, mas de fato, nem sei mesma o quanto sou.

Pensar é me sentir.

Pensar é transformar as minhas velhas concepções em novas concepções,

é criar novas configurações dentro de mim,

é a expansão de mim mesma.

Mas o quanto isto dói!

Pensar dói!

 

Nesta viagem eu descubro

que desde que o homem se conhece como homem, ele sente.

O sentir é o elemento universal do ser humano macromicro.

Ao abrir um livro do século passado e de uma outra cultura,

sou perfeitamente capaz de compreender o que o autor queria expressar

com as palavras amor, raiva, tristeza, frio, calor e medo.

O sentir ultrapassa os tempos, as culturas, as raças, as religiões, etc

Ao contrário, fica difícil para mim compreender

como em certas épocas neste mundo,

condenavam à fogueira aqueles que pensassem diferente.

Percebo nitidamente que a construção intelectual

não pode ser compreendida como universal.

Esta varia com os tempos e com as culturas.

 

Abro o livro de  Wisnik e ele escreve:

A produção da música tradicional indiana

liga-se a uma experiência do tempo produzido como pulso e desdobrado

 através de princípios ou escala de recorrência cósmica

 que a música procura captar, afinando-se por elas.

A sensação do tempo é dada pela afinação corporal e espiritual

com uma série de ciclos micro e macrocósmicos integrados,

codificados em cadeias analógicas.

Os acentos organizam o tempo, mas não o articulam.

O metro “é ordem, mas não medida”.

Pois o tempo, para o indiano, não é um conceito quantitativo,

 mas um fator de qualidade, relativo à disposição psíquica do homem

e isento de medição racional por relógio ou metrômetro.

O tempo é a afinação dos pulsos, experiência da sobreposição infinita

 das fases e dafasagens, descoberto no coração do instante, no fluxo do improviso, através dos meios criados por uma cultura que crê,

simplesmente, que a realidade do universo não é

nada mais (nada menos) do que música. (2)

 

Inspirando-me em Wisnik, me percebo e percebo o outro como música.

O sentir no complexo macromicro liga-se

a  uma experiência do contínuo espaço-tempo,

produzido como pulsos vibratórios e desdobrados através de princípios

ou escalas de decorrência cósmica,

que a minha percepção procura captar, afinando-se por elas.

O sentir no espaço-tempo é dado pela afinação corporal/psíquica

com uma série de ciclos macromicro integrados,

codificados em cadeias analógicas.

Os acentos organizam o tempo, mas não o articulam.

O metro é ordem, mas não medida.

Pois o sentir no contínuo espaço-tempo,

não é um conceito quantitativo, mas um fator de qualidade,

relativo à disposição macromicro do homem

e isento de medição racional por relógio ou metrômetro.

O sentir o contínuo espaço-tempo pelo homem macromicro

é a afinação dos pulsos,

experiência da sobreposição infinita das fases e defasagens

descoberto no coração do instante, no fluxo do improviso,

através dos meios criados pelo sentir sentimentos e sensações

que apreende, simplesmente, que a realidade do universo

não é nada mais (nada menos) do que vibrações.(3)

 

Ainda neste processo eu descubro

que se sou capaz de vibrar, promovo ressonância.

Quando encontro um outro corpo, com freqüências iguais às minhas,

transfiro a minha energia para ele,

que também transfere a sua energia para mim.

Faço o outro sentir a minha vibração e sinto a vibração do outro

e assim, me comunico nas relações, todos os dias.

 

Comunicar-se é compor novas composições e evoluir.

A natureza que me compôs deu a mim o poder de transformá-la,

deu a mim o poder de promover novas composições

e evoluir com o outro em mim mesma.

Sou resultado e um processo de composição

capaz de compor aquela que me compôs e me deixar compor,

por quem também foi composto e compõe.

 

Que corpo é esse

que pertence a um universo, onde a cada instante

se configura uma nova composição?

 

Uma música toca os meus ouvidos,

interage profundamente com as minhas reflexões

e, incorporando-se a mim, forma uma sintonia

com aquilo que estou sentindo, durante esta reflexão sobre esse corpo.

 

Os sonhos mais lindos sonhei.

De quimeras mil um castelo ergui.

E no teu olhar, tonto de emoção,

com sofreguidão mil venturas revivi.

O teu corpo é luz,

sedução.

Poema divino

cheio de esplendor.

Teu sorriso prende, inebria, entontece.

És fascinação

Amor.(4)

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

RAMOS, M.B.B.. Macromicro - A Ciência do Sentir. Editora Mauad, RJ. 1998;

KANDINSKY, W.. Ponto Linha Plano. in: Ramos, M.B.B. Macromicro - A Ciência do Sentir. Editora Mauad, RJ. 1998;

WISNIK, J.M.. O Som e o Sentido Uma Outra História das Músicas. in: Ramos, M.B.B.. Macromicro - A Ciência do Sentir. Editora Mauad, RJ. 1998.

 

___________________________________

 

(1) Wassily KANDINSKY, O Ponto Linha Plano, in: Ramos, M.B.B., Macromicro - A Ciência do Sentir, p. 97-8.

(2) José Miguel WISNIK, O Som e o Sentido Uma Outra História das Músicas,  in: Ramos, M.B.B..Macromicro - A Ciência do Sentir, pp: 100-1

(3) Maria Beatriz BREVES RAMOS. Macromicro - A Ciênica do Sentir, p. 101.

(4) versão: Armando LOUZADA, autor: F.D.Marchetti, letra da música Fascinação

 

QUE CORPO É ESSE?

Beatriz Breves