D. Dede, toda prosa, convida duas amigas para visitar sua primeira neta.

 

Prosa que nem só, foi andando pela rua e, já que era faladeira e conhecia todos da vizinhança, só faltava o megafone: “- vou visitar minha neta... vou visitar minha neta...!” Falava para todos que por ela passava.

Apesar de sua alegria, ela não deixou de se comover ao ver, enquanto aguardava o sinal perto de seu prédio abrir para atravessar a rua, uma senhora carregando em suas mãos um pombinho doente.  Emocionada com aquela situação, olhando para o pombo nas mãos da senhora, perguntou:

 

“- O pombinho está doentinho?”

 

A senhora, levando um susto, responde:

 

“- Que pombinho?! Esta é a minha bolsa?!”

 

Era isto mesmo, o pombinho doente que tanto comoveu D. Dede, nada mais era do que uma bolsinha que senhora carregava entre as mãos, provavelmente, pelo medo de ser assaltada.

 

Mas tudo era festa, afinal, D. Dede era avó e estava indo com duas amigas visitar sua neta.

 

Pegaram um ônibus, pois sua neta morava em outro bairro e chegando ao prédio do seu filho, D. Dede, toda exultante, dirigiu-se ao porteiro dizendo:

 

“- Eu sou a mãe do Du, nora da Di e avó da Lu! Vim visitar minha neta e trazer minhas duas amigas para conhecê-la, o senhor com certeza já a conhece!”

O porteiro, diante do entusiasmo de D. Dede, nem ousou pedir para ela esperar, a fim de anunciá-la pelo interfone. Mais do que depressa falou:

 

“- A senhora pode subir!”.

 

As três pegaram o elevador e D. Dede, emocionada, pois ia ver sua neta e, mais, ia exibi-la para suas amigas, chegando ao apartamento de seu filho, tocou o botão da companhia.

Não levou muito tempo, uma moça relativamente jovem abriu a porta e sorriu. Antes mesmo de dar tempo de perguntar o que desejavam, D. Dede, mais que depressa se apresentou, desejou boa tarde e foi entrando casa adentro com suas amigas. Ela é a nova empregada, pensou D. Dede.

 

O apartamento era decorado com móveis pesados, estilo antigo, o que levou uma das amigas a pensar consigo mesma:

 

“- Que estranho, um casal novo, com uma filha recém-nascida, morando em um apartamento decorado com móveis tão antigos...!?”

 

Chegando à sala, encontrou uma senhora com, aproximadamente, sessenta anos sentada no sofá que lia um livro. D. Dede pensou que aquela senhora era parenta de sua nora, pois a mesma teria dito que receberia uma visita naquele dia.

 

Com certa perplexidade, interrompendo sua leitura, aquela senhora olha por cima dos óculos e pergunta:

 

“- Quem são vocês?”

 

Sem nenhuma timidez, D. Dede se apresenta.

 

“- Eu sou Dede, mãe do Du, nora da Di e avó da Lu. Estas são minhas duas amigas. A senhora deve ser a parenta de minha nora” – fala enquanto as amigas beijam a senhora, sentando uma delas ao lado da senhora no sofá e a outra, em uma poltrona em frente.

 

Muito calmamente, a senhora respondeu:

 

“- Eu sou a dona da casa” – e apontando o dedo indicador para o teto, complementou: “- O Du e a Di moram no andar de cima!”

 

O CÚMULO DO DESLIGAMENTO

Beatriz Breves