A Poderosa

 

Parecia uma noite qualquer até que, ao voltar para casa, após um dia inteiro de trabalho e uma ida ao supermercado, com duas sacolas pesadas, uma em cada uma das mãos, além de minha bolsa cotidiana, um motorista de taxi, com quatro passageiros, me pediu uma informação:  “- Onde fica a rua Lacerda Coutinho?”

 

Eu atravessava a bifurcação da Praça Vereador Rocha Leão, na qual uma das vias vai dar no centro do Bairro Peixoto e a outra na rua Santa Clara, quando ele me abordou com o seu carro já direcionado para o centro do Bairro Peixoto.

 

Mais do que depressa, percebendo o equívoco do motorista ao entrar para aquele lado da bifurcação, disse ele não poderia ir por ali, pois daria uma volta enorme e, ainda, teria que retornar ao ponto em que estávamos para seguir pelo outro lado da bifurcação. Foi quando sugeri que desse uma pequena ré a corrigisse o seu rumo.

 

Aceitando a minha sugestão, o motorista do taxi engatou a ré de seu carro para acertar-se. Tudo seria tranqüilo se não fosse por, naquele exato momento, outro carro se aproximar por detrás; e, mais, se não fosse pouco aquele carro, diversos outros carros, provavelmente porque o sinal da rua anterior deve ter se aberto, começaram a aparecer e a se colocar atrás do taxi, impedindo o seu movimento.

 

Não sei explicar, vendo a situação difícil daquele motorista, algo dentro de mim falou mais alto de forma que me coloquei no meio da rua, no centro da bifurcação, e interrompi o trânsito. De um lado, acenando com a sacola de supermercado da mão esquerda, parei os carros que vinham da rua anterior; de outro lado, acenando com a sacola de supermercado da mão direita, orientei o motorista de taxi a encostar ao meio fio, os carros que já estavam muito próximos a sua traseira a prosseguir e, depois, direcionei o motorista de taxi no sentido de dar ré, a fim de posicioná-lo no lado que deveria seguir pela bifurcação.

 

Impressionante como ninguém ousou questionar. Muito pelo contrário, todos me obedeciam rigorosamente. Parei um, dois, três carros e quem sabe até mais, pois a minha visão não alcançava até a entrada da rua anterior. Eu estava de dar inveja a qualquer autoridade de trânsito!

 

E se não fosse pouco, ao direcionar o motorista de taxi para o lado que deveria seguir pela bifurcação, ainda o orientei no sentido de encostar seu taxi ao meio fio para melhor poder receber a informação sobre onde ficava a rua Lacerda Coutinho. Isto, naturalmente, depois de liberar os outros carros.

 

Mas qual foi a minha surpresa quando percebi que os quatro passageiros e o motorista de taxi, já não se importavam mais com a rua Lacerda Coutinho, mas, sim, eles sorriam e diziam: “-Poderosa! Você é Poderosa! Parou até o trânsito!”

 

Foi somente quando me dei conta do que havia feito. Devo confessar que realmente me senti A PODEROSA. Afinal, com a carência de Homens no mercado, eu poderia, depois dali, dizer que, mesmo “cinquentona”, com alguns quilinhos a mais, eu havia parado o trânsito e, mais, eu havia parado o trânsito com cinco belos homens me aplaudindo...!

 

Não foi um homem não, foram CINCO BELOS HOMENS MACHOS me aplaudindo. Nossa!!!

Surgiu em minha mente a cena de um documentário de TV, na qual uma passarinha fêmea dançava para os passarinhos machos que babavam por ela.

 

Como em um passe de mágica, fui transportada para o documentário. Eu estava no lugar da passarinha fêmea bailando em plena bifurcação. As sacolas eram as minhas asas, que se abriam e fechavam de acordo com a melodia. Os Homens, no lugar dos passarinhos machos, aplaudiam o meu dançar além de me chamarem de poderosa.

 

Diante de tanta emoção, se eles não se importavam mais em saber onde era a rua Lacerda Coutinho, eu também não conseguia mais explicar com clareza onde ficava a tal da rua Lacerda Coutinho. Tentava explicar que era só seguir em frente, indo naquela direção, mas não conseguia ser tão clara, pois eles não paravam de sorrir.

 

Foi quando então falei: - está confusa a minha explicação, não?!

 

Eles imediatamente responderam praticamente em coro: “- você não precisa explicar mais nada, você é PO-DE-RO-SA!!!”

 

Foi quando disse que não teria erro, seguissem em frente que encontrariam a rua. E, assim, se foram.

Chegando ao meu prédio, bem próximo daquele ponto, cumprimentei seu Francisco, o porteiro, peguei o elevador e, finalmente, “EU, A PO-DE-RO-SA”, estava em casa!

 

Enquanto retirava as compras feitas no supermercado das duas sacolas, ria sozinha me lembrando daquela cena, ao mesmo tempo em que notava algo estranho no ar! Todos os dias, tão logo chego em casa, os meus quatro gatos, sim eu tenho quatro gatos, vem me cumprimentar. Naquela noite, apenas dois vieram. Onde estariam os outros?

 

Terminei de guardar as compras e me dirigi para o meu quarto. Ao acender a luz, fui tomada pelo pânico frente ao que vi.

 

Meus dois outros gatos estavam em cima da minha cama. Sendo que um deles quando me viu entrar no quarto e acender a luz, imediatamente, pulou no chão e veio falar comigo. Mas, o outro, sequer se mexeu. Estava com os olhos vidrados, como quem vigiava. Permanecia deitado e imóvel em cima da minha cama, ignorando a minha pessoa.

 

Naquele instante, tal qual o ditado que diz que “o príncipe virou um sapo,“a poderosa virou uma sapa!” Eu não sabia o que fazer.

 

Posso assegurar que entrei e sai do quarto pelo menos seis vezes! Ia e vinha da sala para o quarto, do quarto para a sala, do banheiro para a sala, da sala para o banheiro, da sala para a cozinha, da cozinha para a sala; e isto, várias e várias vezes.  O pavor tomou conta de mim.

 

Até que me lembrei do porteiro e tive a magnífica idéia de pedir socorro.  Mas um detalhe terrível impedia, o interfone estava com defeito!

 

Foi quando então me ocorreu de ir pessoalmente até a portaria. E, imediatamente, sai, batendo a porta de casa. Ao chegar a portaria, eu disse:

 

- Seu Francisco, pelo amor de Deus, o senhor precisa ir comigo lá em casa.

 

           Assustado com o meu desespero, ele me perguntou o que estava acontecendo de tão sério. Foi quando então eu respondi:

 

- Tem uma barata cascuda morta em cima da minha cama!

A PODEROSA

Beatriz Breves