Era uma linda manhã. O mar esverdeado rebrilhava ao sol. Eu caminhava no calçadão de Copacabana, deixando-me levar pelo som das ondas batendo forte e quebrando na areia da praia. De repente, um homem surgiu à minha frente como que ansioso por chegar a algum lugar. Ao mesmo tempo, ele falava: – Olá! Todos os dias você está por aqui, sentado e observando!

 

Confesso que me assustei, até perceber que ele sorria e andava a passos largos em direção à estátua de Carlos Drummond de Andrade, disposta sentada em um banco do calçadão no Posto 6. Chegando perto, cumprimentou-a com um aperto de mão. Um amigo que o acompanhava também apertou a mão do Poeta em cumprimento. Depois disso, os dois tomaram o caminho da areia.

 

O que levaria dois homens de aproximadamente 35 anos, de aparência razoável, não parecendo malucos nem tampouco bêbados, a se dirigirem apressados até uma estátua para, sorrindo, cumprimentá-la? De modo geral, as pessoas tocam uma estátua para receber uma bênção ou pela simples necessidade humana de aproximação. Nesse caso, porém, o toque era uma troca de carinho.

 

Desde então passei a observar a estátua e foi grande a minha emoção ao ver um menino de seus 11 anos, de bermuda velha e suja, com o cansaço e a tristeza estampados no olhar, sentado muito próximo à estátua, como quem busca o aconchego de um pai. De forma respeitosa, com as pernas apoiadas em um saco transparente repleto de latas vazias, ele encostava seu corpo no corpo do Poeta, encolhendo-se discretamente, à procura de colo. Tratava-se, sem dúvida, de um menino carente, que recorria ao Poeta por talvez ainda não ter encontrado calor humano em sua vida. Ao ver aquela cena, admito que chorei.

 

Observei também três distintas senhoras que promoveram uma conversa a quatro com Drummond. Conversa que não pude ouvir, mas parecia bastante animada, acrescida do fato de que, o tempo todo, uma delas acariciava com a mão os dedos do Poeta.

 

Além disso, presenciei a menina que acarinhava os braços de Drummond; a senhora que não conseguia ir adiante sem primeiro fazer um cafuné em sua cabeça; o senhor que, sentado ao seu lado, imitava-lhe a pose; e um outro que, de modo disfarçado, fez do Poeta a sua companhia de banco.

Fui testemunha também de pessoas chegando a extremos, como o caso de uma mulher que, depois de tatear as costas do Poeta, demonstrando preocupação com o excesso de sol, cobriu-o com uma camisa e foi embora; do rapaz que, ao mesmo tempo em que ria, colocava uma das mãos na própria boca, fazendo algum comentário ao pé do ouvido de Drummond; e, ainda, daquele que tentava ajeitar-lhe os óculos.

 

Cada dia, alguém expressava certo tipo de sentimento. Vi pessoas de todas as idades e classes sociais dirigindo-se à estátua como se ela fosse na verdade viva.

 

E o Poeta, naquilo que representava para cada um, correspondeu a todos com carinho, respeito e amizade, versando o amor e a solidariedade, tornando-se um amigo querido, um ente sensível tanto à alegria quanto à dor.

 

Ah! Poeta, quantas emoções genuínas o seu ombro acolhe, sem julgamento e sem preconceito, apenas com amor! Basta olhar para perceber que cada um se sente considerado. São pessoas cujas ilusões e fantasias encontram na sensibilidade do seu olhar sereno alguma fonte de ternura. Muitas delas, ao saírem de casa na esperança de um encontro, retornam de corações vazios, tendo em você, Poeta, a única possibilidade de conforto para o sentimento de solidão.

 

É gente feliz ou infeliz, que todos os dias demonstra as suas paixões. São paixões esperadas, vividas, incansáveis, doídas, paixões e mais paixões – a expressão colorida dos sentimentos humanos.

São paixões esperadas, como as daqueles que permanecem em uma fila para avaliar a saúde. Assim como as das pessoas gordinhas que com a atividade física tentam emagrecer, ou das esbeltas que lutam para se manter. A expectativa de que a decadência leve tempo para chegar.

 

São paixões vividas, como as do par heterossexual que se beija, do casal gay que se ama, do pai que brinca com o filho e da família-padrão que passeia de bicicleta. E, ainda, como as de diversos idosos, muitos em cadeira de rodas, que não desistem de usufruir a vida. A vivência do encontro que sustenta a alma.

 

São paixões incansáveis como as do escultor de areia que faz e refaz a sua obra, do artista que tenta vender o seu trabalho, do massagista que oferece as suas mãos e do ambulante que, sob o sol, vai e vem na busca do seu quinhão. A incansável perseverança na luta diária pela sobrevivência.

São paixões doídas como as das pessoas que, mesmo com o céu azul iluminado pelo sol, se escondem sob as quatro paredes de si mesmas, recusando-se a sair. A dor, quem sabe, do sofrimento profundo diante da desarmonia do eu.

 

São paixões em desafeto como a da mendiga que, arrastada pelo chão por um homem qualquer, berra considerando-se um saco de detritos. O desamor de alguém que sabe que, se Mendiga passou a ser o seu nome, a identidade é um rosto sem fala que só pode gritar o deserto de gente sem vez nem lugar.

 

E, ainda, como as dos meninos que roubam, expressando o rancor dos adotados pelas ruas de forma indigna e cruel. A mágoa de alguém que, ao ser rotulado de menino de rua, tem consciência de que só lhe restou rua como identificação e sobrenome.

 

São paixões que nos fazem rir, chorar, odiar e amar. Emoções em anseios que tornam cada um de nós um ser especial.

 

Um ser especial que peregrina a alegria de estar e se sentir vivo. Um ser especial que perambula pelas esquinas rotineiras tentando aplacar a ansiedade por um futuro que talvez nunca se concretize. Um ser especial no qual, passo a passo, é possível divisar as pegadas da impotência, marcadas no solo pela percussão do tiquetaque da finitude, a absoluta certeza do que de fato virá.

 

Ah, Poeta! Pude compreender que você se faz vivo no milagre da sua poesia, que se perpetua na simplicidade do anonimato, nos versos emocionados que cada um encerra em si mesmo!

 

E é assim, Poeta, que você continuará sentado e observando, sabe-se lá até quando, mantendo-se vivo no “sentimento do mundo” de um povo cheio de paixão. Gente que, esmagando o pó da ínfima existência, passa e repassa diante de suas “retinas tão fatigadas”!

 

 

O POETA E O POVO

Beatriz Breves